Que aconteceria se dois objetos absolutamente idênticos em forma e substância fossem reunidos? Este é o pivô deste romance passado durante os dias inflamados do final da Era do Caos. Da época em que Darkover estava dividido em Cem Reinos em guerra e a civilização oscilava à beira do esquecimento.
Cumprindo a minha promessa a mim mesma de reler e resenhar os livros de Marion, especialmente a série Darkover, vim com mais um volume da série. Dois para Conquistar se situa na Era dos Cem Reinos, e ocorre umas centenas de anos depois de Rainha da Tempestade e A Dama do Falcão (aliás, se você não conhece a série Darkover, recomendo ler as resenhas anteriores, em ordem, porque eu explico um pouco sobre ela). O planeta se encontra dividido em diversos pequenos reinos, como diz o nome da era, e guerras de fronteiras e políticas assolam todo o mundo do Sol Sangrento. E também preciso me corrigir em uma coisa: a trilogia Clingfire, que eu mencionei em Rainha da Tempestade, na verdade ocorre nesta época dos Cem Reinos, e não na Era do Caos. Na verdade, tanto ele como este situam-se num período de transição.
Sim, a terra é assolada por guerras de poder, muitas ainda envolvendo a tecnologia de matriz, com suas armas de longo alcance e letalidade total. E com este cenário como pano de fundo, estamos nas Astúrias, reino que pertence aos Di Asturien. Mas há também uma tentativa de unificação dos reinos sob um único estandarte, e no caso esse estandarte é o dos Hastur, a família que se diz descendente direta dos deuses Hastur e Cassilda, e que é a mais poderosa de Darkover. Neste panorama cresce Bard, filho bastardo de Dom Rafael di Asturien. Bard é criado na corte, sob tutela do irmão de Dom Rafael (que eu não me lembro agora como se chama), e tem na verdade todas as regalias dadas a um príncipe e herdeiro legítimo. Só que Bard na realidade é um personagem detestável. É misógino e machista, belicoso ao extremo, só está feliz durante a guerra, orgulhoso e paranoico e possessivo ao extremo. E essa combinação não é nada boa.
E Bard é o narrador da história, então a maior parte da narrativa se passa na cabeça dele. Ele acha que todo mundo deve algo a ele, e que tudo que dá errado em sua vida é por culpa de alguém, menos dele e de seu temperamento violento. Veja bem, Bard se acha na verdade vítima de seu pai por ser filho bastardo. E quando a mão da princesa Carlina, filha do rei das Astúrias e sua prima, ele acha que ela é sua posse. Aliás, é assim que Bard vê todas as mulheres que passam em sua vida. E ele tem um laran péssimo, que faz com que ele use compulsão para que elas façam sexo com ele. Sim, pessoas, Bard é um estuprador serial, e o pior, nem se dá conta disso. Acha que todas as mulheres no fundo querem ser dominadas. E quando ele acaba tentando forçar Carlina a ceder (porque na cabeça de Bard, estar noivo dela equivale a ser marido, e dá o direito de possui-la), e ele acaba cometendo uma atrocidade e é banido das Astúrias por sete anos, ele vai para o norte, nas colinas Kilghard e se torna um mercenário conhecido como Lobo. E o tempo em exílio só fez o temperamento de Bard piorar. E não se reocupem, ele vai ter o que merece, mas não vou falar sobre isso, pra não dar spoiler.
Mas, nada dura para sempre, e quando o velho rei que sentenciou o exílio morre, Bard retorna a sua casa. E ainda obcecado pela ideia de Carlina (isso é importante. Na realidade, Bard não a deseja, ela não é o seu tipo, mas sim uma peça para sua ambição) e agora que seu irmão Alaric é rei das Astúrias e seu pai o regente, Bard é elevado a lorde comandante do exército. Esqueci de dizer que o velho rei morreu com um filho pequeno, que sua mãe leva para longe, fugindo da guerra, por isso Alaric sobe ao poder, mas na verdade é seu pai, Dom Rafael, quem governa (qualquer semelhança com Westeros e um certo Usurpador não é mera coincidência). E lembra que eu disse que há uma tentativa de unificar todo o mundo sob um único rei, um Hastur. Pois então, Dom Rafael (e ele não está sozinho nisso) não aceita, ou melhor, ele até acha que a unificação é uma boa ideia, mas desde que seja com ele no comando.
Esse pacto na verdade implica mais do que isso. Depois dos horrores produzidos pelas torres, como o fogo aderente e a água de ossos, que matam à distância e condenam inocentes na guerra pelo poder, Varzil de Neskaya quer propor o banimento das armas produzidas pelo laran. E sim, a unificação para se certificar de que isso aconteça. E esse é um ponto delicado, porque se eu não tenho fogo aderente, mas meu vizinho tem e me ataca com ele, como eu vou me defender? E enquanto alguns já aderiram ao pacto, sob a tutela dos Hasturs, outros ainda não. E para ajudar na estratégia de conquistar todo o mundo, Dom Rafael elabora um plano ousado, e potencialmente perigoso. Através de tecnologia de matriz, ele busca a cópia exata de Bard. E ela vem de muito longe.
A cópia atende pelo nome de Paul Harrell, e é um terráqueo. Só que Paul é um criminoso, e está em sono suspenso como punição. Porque Paul não é só a cópia física de Bard, mas também é exatamente o mesmo homem que Bard é, só que em outro lugar. Ou pelo menos, é isso o que dizem, Porque para mim, Paul até pode ser assim, mas depois que acorda em Darkover, ele é outro home, bem diferente de Bard. É mais comedido, não é orgulhoso, e mais humilde e menos selvagem que Bard. E o objetivo do velho ao trazer Paul é que ele possibilite que Bard, que é um excelente estrategista militar, possa estar em dois lugares ao mesmo tempo, e assim, dividir o exército, e assegurar a vitória.
Dois para Conquistar é um dos poucos livros de Marion que não tem uma mulher como protagonista, mas isso não quer dizer que elas não estejam presentes e que não desempenhem papel crucial na trama. A começar por Carlina, que é uma princesa, mas não é mimada, é forte e decidida, e não quer casar com Bard, nem com ninguém. Ela é inteligente e independente, e segue seu próprio caminho, sem que ninguém a detenha. Não é uma conformista. Não posso falar mais dela senão dou spoilers, mas ela tem papel fundamental no final.
Também Melisendra, uma leronis que se preservava virgem para a Visão, mas que acaba compelida por Bard e é a mãe de seu filho. Melisendra é outra mulher forte, decidida, e acaba desarmando Bard com suas atitudes. Ela acaba se envolvendo com Paul, e é extremamente compassiva. Ela passa horrores, mas ainda é capaz de perdoar. E a voz da razão no livro vem de Melora, irmã mais velha de Melisendra, leronis de Neskaya. Ambas são inteligentes e piedosas, independentes e senhoras de si. Só elas entendem Bard, e conseguem lhe mostrar um pouco de misericórdia.
O livro é muito bem narrado, a história prende, mas confesso que passar muito tempo na mente de Bard é terrível, devido à forma como ele vê as mulheres. E Marion conseguiu se desprender totalmente e construir um Bard muito complexo. Neste, em vez de aventuras com em A Dama do Falcão, vemos mais tramoias políticas e trapaças, mas isso tudo faz parte de Darkover, um mundo tão fascinante e tão cheio de nuances como Westeros. Ainda prefiro os romances da Era do Caos, mas de modo geral, Darkover é viciante. Ficção-científica de primeira, mesclada com fantasia. Se você não conhece ainda, vá atrás.
Trilha sonora
This is War, do 30 seconds to Mars é perfeita, em tudo, inclusive pela letra (a warning to the people, the good and the evil, this is war). Seven devils, Florence and the Machine também. Monster e Demons, Imagine Dragons (

) e Somebody else´s song, do Lifehouse (mais 

).
Se você gostou de Dois para Conquistar, pode gostar também de:
- série Darkover – Marion Zimmer Bradley;
- As Brumas de Avalon – Marin Zimmer Bradley;
- O incêndio de Tróia – Marion Zimmer Bradley;
- O Trílio Negro – Marion Zimmer Bradley;
- As Crônicas do Gelo e do Fogo - George R. R. Martin;
- O Senhor dos Anéis – J. R. R. Tolkien.